O ofício do cronista

img129Uma crônica para um leitor assíduo de um diário sempre é uma busca inevitável, se ela não está, a leitura perde a graça, quem sabe a poesia. Um escritor de crônicas não é aquele que simplesmente diz: eu quero ser cronista. A escrita chega e o escolhe, invade as veias e brota das pontas dos dedos, não sem antes passar pelo coração marcando todos os compassos de seus momentos.

A crônica faz o mesmo, chega e aponta:

– Estou contigo.

E ela vai estar.

O cronista tem o ofício de fazer aquela pausa sagrada no meio da tragédia e das notícias do dia a dia nos jornais escritos e até nos da televisão. Assim como o chargista e as palavras cruzadas, no fim de jornal, dão um respiro. É como um oásis de letras onde se pode descansar um pouco e beber água fresca do riacho, filtrada pela mirada muitas vezes já conhecida do cronista.

A escrita diária ou quem sabe semanal pode muitas vezes pesar, como qualquer profissão rotineira há um cansaço do fazer diário. Com a ressalva de que muitos trabalhos se repetem e para o cronista a cada dia passam milhões de coisas novas. Porém muitas vezes as palavras, estas auxiliares do mundo da escrita, decidem tirar um descanso sem mandar aviso ou quem sabe fazer uma greve para pedir fita nova na máquina (já fora de moda) ou um lápis novo, ou quem sabe um computador novo, mais moderno sei lá porque, mas desaparecem.

Costumo dizer que as palavras, para o que escreve, são como as pombas do poema do Raimundo Correa: “Vai-se a primeira pomba despertada… Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas” e o deixam num abandono de roer unhas até que elas, como aquelas pombas   “serenas, ruflando as asas, sacudindo as penas, voltam todas em bando e em revoada”. E quando voltam, as palavras, vêm em bandos buscando espaços para bordar novos textos, para alegria do cronista e de seus seguidores.

Assim são as pessoas que escrevem, seja por prazer, hábito ou necessidade, se não escreve porque o tempo não alcançou naquele dia, invade a madrugada do próximo para expressar aquele pensamento que passou todo dia acenando. Ou mais dramático, levanta-se no meio da madrugada para rabiscar no primeiro papel com espaço em branco uma ou duas palavras que teimavam em aparecer no meio de um sonho; assim como não deve haver faltado guardanapo escrito ou pedaço de papel higiênico rabiscado para não perder o fio do pensamento.

Escrever é um vício, que oferece o paraíso e que escraviza no caso do cronista que todo dia deve enviar sua crônica.

Escrever é preciso. Viver também!

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Uma resposta para “O ofício do cronista

  1. Muito bom!Escrever é sair da inércia, é poder voar do lugar enfadonho, é acalentar com palavras.

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