As famílias se formam, vão crescendo e estruturando-se. Daquele casal inicial que um dia traçou uma trajetória e sonhou com uma família grande que se reunisse nos fins de semana para aquele almoço alegre, para as festas de fim de ano com direito a peru, árvore de Natal, Papai Noel e tudo mais, termina reduzindo-se e voltando ao início, ao casal que a gerou.
Nossos pais viveram esta história, os pais deles também passaram pelo mesmo caminho e viram, depois de alguns anos, seus filhos indo-se pouco a pouco em busca de seus horizontes e da construção de suas próprias famílias, como na poesia de Raimundo Correia: “Vai-se a primeira pomba despertada… vai-se outra mais… mais outra…”. Sofre-se a famosa síndrome do ninho vazio. Agora cabe a nós, da geração que os segue, enfrentar esta nova vida, que fazer se já fomos uma daquelas pombas também.
Mas parece que alguns pais hoje estão vivendo outra versão de ninho, o que não esvazia. A vida nas sociedades tem mudado tanto, que os filhos optam por ficarem na casa dos pais até poderem ter um lugar seu, ou não. Então o que vemos é uma volta ao passado quando todos seguiam na casa de um patriarca e viviam numa grande comunidade de cooperação em torno do bem estar de todos e manutenção dos valores originais desta família. Entretanto, volto à minha reflexão e não sei se isto acontecia mesmo assim, se a história se repete ou se cada um vivia e vive na sua, apenas dividindo o espaço físico sem muita participação do todo ou mesmo sem seguir em nada ou quase nada aqueles valores iniciais dos que geraram esta comunidade familiar.
Muitos falam de uma adolescência prolongada o que faz pensar em uma velhice postergada, há um “stand by” familiar, as pessoas se mantêm numa bolha atemporal onde as emoções se misturam num faz de conta compartido.
Ou pode ser aquela outra versão onde o pai ou a mãe que envelhecem ficam sós e necessitam ir para a casa de um filho. Novamente a questão de papéis se impõe, desta vez este pai ou esta mãe passam a ocupar um espaço que não estava pensado nesta família, pois ele ou ela tinham já um lugar definido nas suas casas. Então fica sentindo-se incômodo neste novo ninho, que não é mais o seu onde podia ter voz de mando, este papel já não lhe cabe mais. Que difícil colocar-se no lugar do outro, e pensar-se agora como alguém que deve submeter-se às regras ou criará um problema.
Assim que os ninhos vão se transformando nesta sociedade que já não se entende, onde os valores mudaram e muitos se deixam ficar à margem deste novo mundo, apeiam e não sabem mais como voltar a fazer parte dele, a subir outra vez.